ARTE NA PELE #03 - DITE TATTOO
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1/14/20264 min read


A'CRON: Como e quando foi o seu início como tatuadora?
DITE TATTOO: Eu comecei a tatuar no final de 2018, juntei um dinheiro do estágio que fazia no ensino médio e comprei minha primeira máquina de tatuagem. Para falar da minha trajetória na tatuagem acho importante começar falando sobre minha relação com o desenho. Eu desenho desde pequena, para mim rabiscar era uma forma de tornar visível meus desejos visuais, coisas que criava na minha cabeça - lugares, roupas, pessoas, animais. Meu processo de aprendizagem visual foi em grande parte sozinha, observando e copiando o que eu achava interessante.
Como a maioria das crianças da minha geração, os mangás e animes japoneses são os primeiros encantamentos e referências para criar ilustrações. Através de revistas e videos na internet fui aprendendo técnicas e passava horas e horas no quarto criando desenhos. No final do ensino fundamental, os professores da escola me encaminharam para o atendimento especial em artes para alunos com altas habilidades, e lá tive acompanhamento de professores e pude ter contato com outros materiais (como tinta acrílica, aquarela, pastel seco e oleoso, lápis de cor profissional). Como a produção em artes sempre foi muito natural para mim decidi iniciar minha formação em Artes Visuais na Unb, e durante esse período dividi meu tempo entre tatuar estudar. Comecei a tatuar logo no início da faculdade, no começo em casa mas logo entrei no meu primeiro estúdio, e desde então são vários anos aprendendo com varias pessoas que encontro pelo caminho.
A tatuagem é um meio que o conhecimento e técnicas não é tão sistematizado como outras práticas visuais, ainda existe o espaço do conhecimento através da oralidade, da observação - até dá para aprender a tatuar sozinha, mas para tatuar bem o contato com outro é indispensável - eu mesma tenho vários cadernos com anotações de dicas e processos de diferentes pessoas- desde cursos online, aqueles reality shows de tatuagem, workshops e conversas com colegas de trabalho. Diferente do papel nosso suporte é um ser vivo, e por conta da singularidade de cada corpo, o processo de tatuagem deve ser de certa forma flexível e adaptado, ao mesmo tempo que rígido em outros aspectos.
A'CRON: Quais os principais desafios que você enfrentou para seguir a sua carreira?
DITE TATTOO: Para mim um dos principais desafios é a insegurança - nos seus mais variados aspectos. Ser artista é se colocar no lugar do desconforto, que e essencial para o aprendizado e a transformação da sua prática artística. A tatuagem uma das formas de conseguir trabalhar e ganhar dinheiro com arte, consegue fugir do mercado elitizado da arte que é inacessível para a maioria - mercado que só fui ter conhecimento da existência com a faculdade.
Mas ser um profissional autônomo não é um mar de rosas como é pintado nas redes sociais ultimamente. Se você não tem outra fonte de renda, ou vem de um lugar de estabilidade financeira é muito difícil se manter financeiramente - principalmente no começo quando ainda estamos conquistando a confiança dos clientes e um lugar nesse mundo - Exige muita organização financeira, pé no chão e mesmo assim é difícil passar por meses de baixa demanda, com a pandemia então, muita gente acabou desistindo. Precisa ter muita resiliência e esperança - se reinventar e não ficar parado quando o mar tá muito calmo.
A'CRON: Na sua visão, qual é o poder que a tatuagem pode causar no corpo de uma pessoa?
DITE TATTOO: A tatuagem é uma prática ancestral, que se manifesta em várias partes do mundo e a gente não pode nunca esquecer disso, existe um motivo pelo qual o ser humano se pinta. Dentro de nós parece existir um desejo pelo beleza, se ornamentar e transformar nosso corpo.
É da nossa espécie essa vontade de criar outras realidades, transformando o que já existe. A tatuagem é uma forma de demostrar pertencimento a uma comunidade, traduzir pro mundo em forma de padrões gráficos e imagens coisas que constituem quem nos somos - ela nos torna ao mesmo tempo único e coletivo. Construímos quem nós somos ao longo da vida, e as mudanças do nossos corpo, tanto físicas quanto simbólicas fazem parte desse processo.
A'CRON: Quais mentiras você já escutou alguém dizendo sobre tatuagem?
DITE TATTOO: Com a colonização do mundo a tatuagem passa a ser marginalizada, algo que era comum e parte da identidade de um povo. Até hoje podemos ver esse imaginário criado para entender a tatuagem como uma marca da besta, coisa de bandido e transgressão. Por isso a tatuagem se torna uma resistência, de povos como os Maoris por exemplo - que com suas tatuagens lutam em defesa da preservação de sua cultura.
Outra mentira que repercute muito é em relação a tatuagem em pele negra, principalmente na pele negra retinta. Muitos dizem que não combina, que não dá para fazer algo legal. Mas hoje temos muitos tatuadores especializados que mostram que todo esse discurso isso é só racismo e falta de referência histórica - como a Karol Portela (ka_liberato), o Fabio Lopes ( fabiolopes_ttt) o Marcos Oliveira ( arte.preta) - entre outros.
A'CRON: Quais referências você tem de tatuadores aqui no Distrito Federal?
DITE TATTOO: Eu tive a oportunidade de conhecer tatuadores incríveis nesses anos de trabalho, aqui no df tem muitos artistas muito talentosos. Vou fazer uma lista enorme mas vale muito a pena conhecer todos eles. A Luaziii tem um jeito de traduzir a tatuagem tradicional para uma linguagem só dela de uma maneira incrível. A sensibilidade e pesquisa que Belo e Bizarro desenvolve nos quadros e nas peles é brutal e apaixonante.
O Vinny é um grande exemplo de dedicação ao estudo, produção e socialização de conhecimento teórico sobre tatuagem. O Juquittoo não tem como deixar de fora, adoro como ele domina linhas tão expressivas. E a Clara Luz - que tem uma pesquisa linda sobre cerrado e usa muito bem técnicas de realismo para construir transparências etéreas.
